Frei Betto é sempre lembrado quando o assunto é a controversa
relação entre a ditadura militar e a Igreja Católica, que passava por profundas
transformações enquanto o país esteve sob o jugo das Forças Armadas.
Em entrevista ao
UOL, o dominicano descreve os
conflitos no interior da igreja durante a ditadura e explica como se operou a
mudança de lado da CNBB, que inicialmente celebrou o golpe com agradecimentos a
Nossa Senhora Aparecida, mas depois se constituiu como força de resistência ao
regime. O religioso revela ainda que a CIA (agência de inteligência dos Estados
Unidos) financiou as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, manifestações
populares que antecederam o golpe militar.
UOL - O que o senhor estava fazendo em 31 de março de
1964?
Frei Betto - Na verdade o golpe foi no dia 1º. Essa história
de 31 é invenção dos milicos porque tinham vergonha do 1º de abril. O golpe foi
oficialmente no dia 1º de abril, quando Jango sai do Brasil e se refugia no
Uruguai. Eu estava participando do Congresso Latino-americano de Estudantes em
Belém, no Pará.
Quem é Frei Betto
Frade dominicano e escritor, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto,
69, mineiro de Belo Horizonte, era um jovem estudante adepto da Teologia da
Libertação quando as tropas derrubaram o presidente João Goulart, em 1964. Foi
preso pela primeira vez dois meses após o golpe, permanecendo 15 dias detido. O
segundo cárcere foi mais longo, entre 1969 e 73, e mais cruel: o frade foi
submetido a sessões torturas nos porões do DOI-Codi, em São Paulo, comandado
pelo Coronel Brilhante Ustra.
Nos dias posteriores ao golpe, o militante
religioso foi testemunha da derrota dos progressistas no embate com
conservadores dentro da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), fato
que resultou no apoio da Igreja Católica aos militares ao menos até 1968, quando
o regime aprofundou a repressão e a violação de direitos humanos.
Autor
de três livros sobre os anos de chumbo ("Cartas da Prisão", "Diário de Fernando"
e "Batismo de Sangue"), Frei Betto relata que o Ato Institucional nº. 5 (AI-5) e
o aumento da perseguição a religiosos, assim como a ascensão de bispos
progressistas, provocaram uma virada na igreja, que passou a se opor aos
militares até o final do regime, com a chancela do
Vaticano.
UOL - Como o senhor recebeu a notícia?
Frei Betto
- A notícia veio de maneira difusa, confusa, de que havia movimento de
tropas, que o Jango tinha passado por Brasília, depois ido a Porto Alegre e de
lá saído ao Uruguai, porque estava deposto. O Congresso foi desfeito porque ali
participavam estudantes de quase todos os países da América Latina, muitos deles
acostumados a golpes militares. Eles sentiram que a coisa ia endurecer. Estava
hospedado na casa do arcebispo de Belém dom Alberto Gaudêncio Ramos porque eu
era dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Ação Católica também.
Fui pra casa de um militante da JEC chamado Lauro Cordeiro. E ali fiquei, de
ouvido colado no rádio, tentando entender o que estava acontecendo, e fomos
tomando consciência, a partir do dia 2 ou 3 [de abril], de que realmente havia
um golpe militar, que começava uma repressão. Nós esperávamos uma reação das
forças esquerda, do PCB (Partido Comunista Brasileiro), da Ação Popular, das
Ligas Camponesas, reação que nunca veio. Praticamente os militares assaltaram o
poder sem precisar dar nenhum tiro.
UOL - Essa reação não ocorreu por quê?
Frei Betto -
Não ocorreu porque era um blefe. Realmente a esquerda não estava
suficientemente organizada. Primeiro, não acreditava que houvesse um golpe,
porque havia um mito de que o Jango detinha pleno controle das Forças Armadas. E
que os generais que eram ministros dele jamais haveriam de traí-lo. O esquema
militar do Jango era um mito que se alimentava. Em segundo, porque a esquerda
era muito proselitista, mas não fazia um trabalho de organização popular. Não
havia um trabalho de base como houve depois da ditadura. Era uma esquerda muito
mais discursiva, ideológica, mas que não tinha uma capacidade de mobilização
popular como se imaginava que tinha ou se esperava que tivesse para reagir ao
golpe.
UOL - Naquele momento o que lhe passava pela cabeça?
Frei Betto
- Meu pai já tinha vivido sob uma ditadura, de [Getúlio] Vargas, já
tinha sido preso, nos anos 30, teve que deixar o Rio de Janeiro, onde exercia a
advocacia, e voltar a Minas porque forças de Vargas cercearam qualquer
possibilidade dele de arrumar emprego. Ele me descrevia a ditadura como uma
coisa cruel, assassina, com censura, sem nenhuma liberdade de expressão. Comecei
a esperar que a mesma coisa viesse a acontecer. E fui atingido na pele só no dia
6 de junho de 1964, quando eu voltei ao Rio de Janeiro, onde morava, e ali eu
fui preso com a direção da JEC, da JUC (Juventude Universitária Católica) e da
Ação Católica, pelo serviço secreto da Marinha na madrugada de 5 para 6 de
julho.
UOL - Nessa primeira prisão, onde o senhor
ficou?
Frei Betto - Primeiro eu fui levado até o comando da Marinha,
na praça Mauá (centro do Rio), onde nós fomos torturados, interrogados e
transferidos para Ilha das Cobras (RJ), no quartel de fuzileiros navais. Ficamos
uma semana presos e depois fomos levados de volta ao apartamento em que
morávamos por conta da CNBB, mas especificamente por conta de d. Helder Câmara,
que era o assistente da Ação Católica, e ficamos em prisão domiciliar mais uma
semana. Depois fomos liberados sem que houvesse processo formal.
UOL - Nesse período chegou a haver tortura?
Frei
Betto - Houve tortura. Quando fomos levados para o comando naval, houve
tortura. Não nos moldes de 1969, quando fui preso de novo, mas houve tortura,
com sopapos, soco na cara, empurrão.. Não houve pau-de-arara, choque elétrico,
essas coisas.
UOL - O senhor poderia descrever qual era o clima
político do país naquele momento?
Frei Betto - Era um clima de
absoluta perplexidade. Em meados de abril de 1964, numa reunião no Rio da qual
participei como membro da direção nacional da Ação Católica, houve uma furiosa
discussão entre bispos conservadores e progressistas, tendo ganhado o setor
conservador. E a CNBB oficialmente apoiou o golpe por ter livrado o Brasil da
ameaça comunista. O caldo de cultura do golpe já havia sido preparado pela CIA
no Brasil através do padre Patrick Peyton, que era o pároco de Hollywood e veio
ao Brasil. Hoje já se sabe com documentos que ele era pago pela CIA para fazer
as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Ele promovia grandes mobilizações
nesse sentido. Portanto, quando veio o golpe, a igreja agradece a Nossa Senhora
Aparecida ter livrado o Brasil da ameaça comunista. Ao mesmo tempo havia aquela
ideia de que a ditadura não duraria muito tempo porque [depois do golpe] não
houve propriamente uma manifestação popular de apoio explícito. Então se pensava
que os militares não teriam respaldo da opinião pública. Nos enganamos. A
ditadura não só foi se aprimorando na sua crueldade, no seu desrespeito aos
direitos humanos, principalmente a partir de 68 com o AI-5, como também ela
durou 21 anos, o que na época ninguém esperava que acontecesse.
Se
pensava que os militares não teriam respaldo da opinião pública. Nos enganamos.
A ditadura não só foi se aprimorando na sua crueldade, no seu desrespeito aos
direitos humanos, principalmente a partir de 68 com o AI-5, como também durou 21
anos, o que na época ninguém esperava que acontecesse.
UOL - Pelo o que o senhor diz, a igreja estava
dividida naquele momento. Ou os setores que eram contrários ao golpe ainda eram
minoritários?
Frei Betto - Eles eram minoritários. Os bispos tinham
uma formação tradicional. Os primeiros bispos progressistas estavam praticamente
aparecendo no cenário brasileiro, como o d. Helder [Câmara], o d. Waldyr
Calheiros, que era bispo de Volta Redonda (RJ), o d. José Vicente Távora, de
Aracaju. Mas eram poucos. O d. Carlos Carmelo Mota, de São Paulo (presidente da
CNBB à época), era um moderado, mais para progressista. Era muito amigo do
Juscelino [Kubistchek]. Mas o d. [Alfredo] Scherer, que era arcebispo de Porto
Alegre, o d. Jaime Câmara, que era arcebispo do Rio, eles eram muito
conservadores e tinham muita força. Havia também dois militantes de extrema
direita no episcopado, que eram o d. Geraldo Proença Sigaud, de Diamantina (MG),
e d. [Antônio de] Castro Mayer, de Campos do Goytacazes (RJ), que eram patronos
da TFP (Tradição Família e Propriedade). Esses eram dois militantes ferozes do
fundamentalismo conservador na igreja. E tiveram muita atividade, muito empenho,
nessa aprovação do golpe por parte da CNBB.
Qual a sua história?

Envie seu relato da época
UOL - Como o Vaticano e o papa Paulo 6º se
posicionavam?
Frei Betto - O papa não se posicionou no início. Mais
tarde, o Vaticano veio a censurar a ditadura. Porque com o tempo a repressão se
estendeu também à igreja e daí criou-se não só uma divisão na igreja, mas a
própria CNBB foi se afastando da ditadura. A partir dos anos 70 a CNBB foi
praticamente a grande voz de defesa das vítimas da ditadura. Tanto que o mais
importante documento sobre os mais de 20 anos de ditadura foi produzido pelo d.
Paulo Evaristo Arns, que é o livro "Brasil Nunca Mais", que ele fez também com o
reverendo Jaime Wright. A igreja e a própria CNBB se tornaram, a partir do AI-5,
uma voz contra a ditadura. A igreja mudou de posição à medida que padres, bispos
e religiosos eram também perseguidos e vitimizados pela ditadura. O d. Adriano
Hipólito, por exemplo, bispo de Nova Iguaçu (RJ), foi apreendido e torturado. O
d. Marcelo Carvalheira, que era assessor de d. Helder, foi preso comigo no Rio
Grande do Sul. Toda essa repressão que atingiu os bispos fez com que a igreja
assumisse cada vez mais uma posição crítica à ditadura.
Na medida em que os bispos foram se posicionando, Paulo 6º
veio em apoio, tanto que na prisão dos dominicanos se manifestou explicitamente
a nosso favor. Enviou-nos de presente um rosário feito de contas de oliveiras de
Jerusalém e um cartão manuscrito "como um testemunho de afeição, Paulo 6º".
Tivemos um apoio explícito nos quatro anos em que estivemos presos.
UOL - E os bispos conservadores, como ficaram após
essa virada na CNBB?
Frei Betto - Eles ficaram em minoria. Alguns
foram morrendo, outros foram aposentados por razão de idade ou de doença, mas
eles foram perdendo a hegemonia da CNBB, que passou para as mãos dos
progressistas, que eram críticos contundentes da ditadura e, portanto,
defensores dos direitos humanos. Você vê surgir uma igreja progressista, das
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), das pastorais populares, assumindo uma
posição bastante consequente, contundente, contra a ditadura militar.
UOL - Mas também houve repressão contra as
CEBs.
Frei Betto - Sempre houve. Quanto mais a igreja se
posicionava, mais havia repressão. Houve repressão sobre todos aqueles que se
opunham à ditadura.
UOL - Antes dessa virada, havia trânsito entre os
militares e lideranças da igreja?
Frei Betto - Havia. Como o caso do
d. Eugênio Sales, no Rio, cuja postura até hoje, no meu ponto de vista, não está
devidamente esclarecida. Ele alega que ajudou perseguidos, mas eram perseguidos
do Uruguai, da Argentina e mesmo assim eu pessoalmente não conheci nenhum dos
perseguidos do Cone Sul que tenham sido ajudados por ele. Sei que no caso dos
perseguidos brasileiros, com exceção de algumas pessoas notórias, como
intelectuais e jornalistas, ele se omitiu inteiramente. Pelo menos foi assim nos
casos dos dominicanos.
UOL - Havia delatores dentro da igreja?
Frei Betto
- Isso sempre aconteceu. Não foi uma coisa maciça, mas aconteceu. Eu
mesmo fui interrogado no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São
Paulo pelo delegado Alcides Cintra Bueno, que era conhecido como delegado
oculto. Ele tinha delatores dentro da igreja. Tinha padres, freiras, frades,
pessoas que achavam, sei lá, em sã consciência que estavam ajudando a livrar o
Brasil do comunismo, a purificar a igreja. Havia sim delatores dentro da igreja,
como há em qualquer instituição, dentro do jornalismo, no teatro, em sindicatos.
Isso sempre houve.
UOL - Como avalia o impacto do golpe na
igreja?
Frei Betto - Eu acho que o impacto foi muito positivo.
Porque levou a igreja a se conscientizar do que é uma ditadura e do papel dela
em defesa das vítimas, dos direitos humanos, dos mais pobres. São males que vem
para o bem. Ou seja, a ditadura acabou produzindo uma grande renovação da igreja
no Brasil, renovação que depois se perde bastante com o pontificado do João
Paulo 2º.
São
males que vem para o bem. A ditadura acabou produzindo uma grande renovação da
Igreja no Brasil, renovação que depois se perde bastante com o pontificado do
João Paulo 2º.
UOL - Esta renovação interrompida se recupera
hoje?
Frei Betto - Agora com o papa Francisco (risos) nós estamos
virando a página. Ainda a maioria dos bispos e padres que temos é resultado dos
pontificados de João Paulo 2º e Bento 16. Então não dá para ser otimista
imediatamente, mas, a médio prazo, sim. Tenho impressão que a Igreja Católica
vai passar por uma grande mudança, com a volta das CEBs e daquela igreja
progressista, que, diga-se de passagem, enchia os templos da Igreja Católica,
não havia essa evasão que há hoje. A evasão coincide com a repressão às CEBs, às
pastorais populares. Tenho a impressão que vamos voltar a um novo alento aí na
Igreja Católica com o papa Francisco.
UOL - Como a igreja vem se comportando nesse processo
de rediscussão da ditadura, com as Comissões da Verdade?
Frei Betto -
Vem se comportando muito bem, inclusive dando todo apoio, assessoria,
documentação. Aliás, toda a documentação mais importante que existe sobre a
ditadura foi feita pelo trabalho da igreja, do d. Paulo Evaristo Arns e do
reverendo Wright. Eles que fizeram essa documentação, que foi microfilmada,
levada para Suíça, recentemente retornou e hoje está à disposição dos
pesquisadores em São Paulo.
Outro lado
Procurada pela reportagem do
UOL, a Embaixada
dos EUA no Brasil informou não ter "como fornecer nenhuma análise histórica
desse período".
A reportagem do
UOL entrou em contato por
telefone com a assessoria de imprensa da CNBB na última terça-feira (18) para
que comentasse as afirmações feitas por Frei Betto. Até o fechamento do texto,
às 20h desta quarta-feira (19), a entidade não havia respondido as perguntas
enviadas por email.
* Produção: Noelle Marques
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Veja fotos históricas do golpe de 1964 e da ditadura
militar (1964-1985)15 fotos
8 / 15
O jornalista Vladimir Herzog é um dos símbolos da
violência do Estado no período ditatorial. Na noite de 24 de outubro de 1975, o
jornalista se apresentou à sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações de
Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, para prestar
esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). No
dia seguinte, foi morto aos 38 anos
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Herzog